domingo, 17 de janeiro de 2010

Metamorfoseando-se

Abriu os olhos lentamente, sentia as pálpebras pesadas. Os cílios embaraçados das lagrimas de ontem trazia à memória que toda aquela dor latejante sofrida na noite anterior já não passava de uma pequena sensação de ressaca.
Era estranho perceber isso - como podemos viver momentos extremamente angustiantes numa noite e acordar como se tudo tivesse sido um sonho ou um surto alucinante - Como aqueles dias bonitos de verão que se transformam num dia cinza, com nuvens carregadas ressoando batuques de trovões, como se fosse chover até não parar mais. E, então, amanhece um dia lindo e tranqüilo, os pássaros cantando levemente sua canção de sempre, as flores com algumas gotas de orvalho, a terra levemente úmida. Simples assim, como um sorriso banguela de uma criança que descobre naquele instante o puro prazer de sorrir.
Assim Ella despertou. Continuou na cama, foi tomando consciência do seu corpo, alongando-se, e pensando no que tinha sido a noite anterior em sua vida. Lembrou-se que lera talvez num poema de Mario Quintana, que toda decisão é um ato de dor. Concordara: Sim! Assim como a dor da lagarta que na crisálida vive o momento de abrir mão do que parece ser ela. E, é, de fato, parte do que a compõe, mas é necessário que morra esta parte para que algo novo surja, a borboleta precisa voar.
Seu primeiro entendimento do que viria ser a paixão, aconteceu no fim da infância com sua vizinha de mesma idade, ambas adoravam aproveitar a sesta da mãe de Ella, nas tardes, trancadas no quarto com as janelas abertas, descobriam o corpo alheio sem armaduras. Eram toques, beijos, e a sensação incrivelmente excitante de descobrir o calor gelatinoso do delicado orifício da amiga.
Lembrou-se da frase que recebera na noite anterior, através de uma mensagem no celular - conter uma enxurrada pode ser tão difícil quanto parar um tufão - e de como fazia tempo que não sentia o coração trepidar com a simples lembrança de alguém. Na verdade, vivera algumas paixões platônicas na adolescência por rapazes mais velhos, nada relevante pois existia uma charada guardada em sua esfinge particular que a devorava sempre. Uma prisão dentro do seu próprio castelo que não lhe permitia se abrir para ninguém, muitas vezes, nem para si mesma.
A liberdade era uma sensação que ainda a assustava. Era como se apoderar de algo que é seu, mas que não se achava digna de possuir. Ou, como se tivesse uma tela em branco, tintas e pincéis disponíveis, faltando-lhe coragem de preencher aquele espaço, tatuando-o com seus traços... Existia um medo de desenhar a própria vida. Talvez uma culpa ancestral.
Lembrou-se de datas marcantes em sua vida- seu primeiro beijo, a sensação da menstruação escorrendo pelas pernas, o primeiro orgasmo, a morte de sua mãe - todas as dores e prazeres que a fizeram se sentir mulher a cada dia. Essa era sua primeira tentativa de traçar um risco peculiar em sua vida-aquarela. Naquela manhã acordou decidida a dar um significativo passo em seu processo de vida-descoberta: Cortaria seus cabelos, entregá-los-ia à Iemanjá, e diria sim ao pedido de namoro que recebera de uma mulher, ambas apaixonadas e temerosas. Partilhariam então: não temer fogueiras, torturas, espelhos, nem telas em branco.