Eu nasci sem saber que estava fadado a carregar o peso da tradição de onde se nasce. Pois não se nasce tendo muita consciência de nada. Mas aos poucos, como um buraco negro sugando tudo a nossa volta tentamos preencher constantemente e ansiosamente o que não tem início e nem fim, e por isso nunca será preenchido.
Nasci no interior de São Paulo, numa cidadezinha chamada Limeira. Não me lembro muito bem a história que me contaram na escola sobre a origem do nome, mas lembro a sensação de visualizar aquele primeiro homem pré-limeirense que de alguma forma nomeou a cidade. Mas tudo isso pode ser uma imaginação minha corrompida pelo tempo.
Quando eu era limeirense e não percebia que existia em minha fala um erre (a letra "R") que quase virava um "i" em palavras como carne, porta, português, etc eu era feliz e não sabia. Por volta dos 6, 7 anos me mudei para o interior da Bahia, numa cidade que se autodenominava "Portal da Chapada Diamantina", chamada Itaberaba, que significa "Pedra que Brilha" em alguma língua indígena. Chamavam-na assim por causa de uma imensa pedra que existia nos arredores da cidade, uma pedra que ainda continha escrita dos mais remotos moradores de lá... Quanto os índios que escreveram nesta pedra que nomeia a cidade eles foram dizimados, como quase todos os índios. E só são lembrados, superficialmente, em abril, no dia dos índios, como lembramos do Papai Noel, no natal; do coelho da páscoa, na páscoa... Ou como qualquer outra imagem que não queremos esquecer, mas pouco importa saber o seu real significado.
Lembro-me das primeiras sensações de me sentir um E.T por conta da diferença cultural: No primeiro dia de aula no primário, formou-se uma roda em torno de mim e eu como um palhaço no picadeiro dizia qualquer palavra com "R" para a alegria geral da plateia. O espetáculo terminava quando a professora entrava na sala e por compaixão permitia que eu me sentisse apenas mais um na classe.
Em pouco tempo, e sem nem perceber a mutação, lá estava eu aprendendo que suco congelado no saquinho na Bahia era geladinho e não chupe-chupe, como havia aprendido em Limeira. Aprendi também o momento certo de se utilizar a interjeição Oxente! e suas variações Oxe!, Oxe, oxe, oxe, oxe...!, Ô retado!, entre outras. E utilizava muito o palavrão "porra!" para tudo e a toda hora. Mas não deveria nunca xingar o nome da pelada: Desgraça!, pois era nome quase proibido. Só os mais hardcores usavam-na sem medo das possíveis consequências advertidas pelos mais velhos, como ser interpelado pelo próprio Capeta.
Terminado o ensino médio fui morar em Salvador. Na capital da Bahia descobri outras maravilhas que no interior não acessei. Descobri Gal Costa, Caetano Veloso, Maria Bethânia, Gil, Tom Zé, Hermann Hesse, Caio Fernando Abreu, Hilda Hilst, Drummond, Fernando Pessoa, Osho, krishnamurti, Alexander Lowen, Almodovár, Lars von trier, Karim Ainouz, Walter Salles, Laís Bodanzky... Descobri artes plásticas nos museus da cidade. Descobri o cinema de lugares do mundo que eu nem percebia no mapa. Estava descobrindo o Brasil. E amando o país.
Cresci influenciado pela cultura norte-americana, assistindo filmes hollywoodianos que passavam na TV, ouvindo música pop estrangeiras nas rádios, e praticamente não lia nada (só quando obrigado para fazer as provas na escola)... Até me tornar soteropolitano.
Estar em Salvador era encantador. Ter uma praia lindíssima fazendo parte da cidade, o "Porto da Barra", era de um privilégio que eu nunca banalizei. Acessar as exposições no Museu de Arte Moderna ( Mam) e toda sua beleza histórica (sua capela, seu chão de pedras, seus caminhos encantados e cheio de arte para onde quer que se olhe - arte feita pelo homem e pela natureza). Cruzar na rua com artistas que eu admirava no palco também era algo que eu achava bem legal. Conhecer a comunidade de candomblé do Ilê Axé Opó Afonjá, e toda seu axé, participando das cerimônias em homenagem ao patrono da casa - Xangô (Kawo Kabiyesi le!) , e todas as festas suntuosas no barracão era acessar uma magia inefável - só pode ser vivida sentida, pouco se explica. Passear pela Ribeira e seguir até a Ponta do Humaitá é um passeio de beleza estonteante. Descobrir sambas e barezinhos no Pelourinho, entrar em igrejas e ver registros tristes das senzalas do tempo da escravidão oficializada, ser abordado a cada passo que se dê por algum pedinte em estado de miséria e em total entrega às drogas é bem triste e desagradável, mas ainda assim é possível interagir com todo o ambiente e aguçar nosso espirito político pensando no que seria uma solução real para reverter aquele bizarro quadro.. É aprender a chupar cana e assobiar ao mesmo tempo. Estar no Rio Vermelho, no "Largo da Dinha" comer um acarajé ou abará, tomar cerveja e ver uma noite quente de lua cheia e o mar repleto de barquinhos refletindo os raios lunares como uma linda estrada de prata... São situações que inebriam a alma. E, tudo isso fez como que eu me encantasse por Salvador sem ter traçado um plano de estratégia, como fez Dante Alighieri, para passar imune aos encantos das sereias. Ao contrário, eu me entreguei de peito e alma ao puro encantamento e sedução. Eram dias eternos de carnaval.
Agora, estou no Rio de Janeiro. Mal posso pronunciar uma simples frase que sou visto como a alegria materializada em forma de homem. Afinal, Baiano não nasce, estreia!; Sorria!, você está na Bahia; Bahia, Terra da alegria! e todos os lemas e dilemas que criaram o estigma da baianidade.
Mas, ô mô pai... Ó pai ó! Eu não sabia que era paulista quando nasci em Limeira, eu não era baiano quando morei na Bahia, e agora sou baiano morando no Rio. Tudo que eu como me oferecem pimenta, e ainda se assustam quando recuso: "Mas você não é baiano?". No meu pensamento respondo: Não sou baiano, não sou paulista, não sou carioca. Não sou nada e sou tudo ao mesmo tempo! Os franceses tomam e não tomam banho, os colombianos traficam e não traficam drogas, os ingleses são e não são pontuais, a África é um continente, nem todo palestino é e não é um homem bomba e eu sou e não sou um baiano. E me deixe comer meu miojo sem pimenta, please.