quarta-feira, 10 de novembro de 2010

Violência nossa de cada dia

Num átimo, enquanto se espera o sinal abrir e
um solavanco de um corpo sujo contra o dele, enquanto levam seu celular, relógio ou carteira e
no susto, um desequilíbrio e
uma roda de ônibus passando em cima de suas pernas, enquanto pessoas atônitas e curiosas assistem, como platéia, o sangue jorrando de um pequeno chafariz que desenha no asfalto sujo a face da Morte.
E foi assim a primeira cena de uma manhã/numa quarta-feira/no centro da cidade/de uma capital/de um país extremamente injusto e desigual.


(Trilha do dia: Construção – Chico Buarque.)

quinta-feira, 11 de fevereiro de 2010

Viagem à Chapada (último dia)


A despedida foi como se deixássemos velhos amigos: O recepcionista do camping, que toca numa banda de reggae; A familia rippie, artesãos de lindos sonhos; Os amigos da casa-restaurante-repleta-de-vinis-e-uma-vitrola-incrível-na-sala, que me emprestou um livro para que eu entregasse a qualquer tempo num novo reencontro; A família recifense, que encontrávamos em trilhas, ônibus, cachoeiras... sem que marcássemos encontro; O moto-táxi, récem-rechegado à vila, que por conta de uma paixão por uma nativa deixou sua terra natal, que para minha surpresa era um lugar menor que o vale do Capão; Viviu, o dono da mercearia, com seu horário comercial próprio: "abro qdo quero e fecho quando me enche o saco"; As flores; Os dreads looks coloridos; As cachoeiras; O Cheiro de terra; As estrelas; O silêncio; A sinfonia dos pássaros...

Dor no coração. Uma parte de mim volta e uma outra maior fica. Não quero acreditar que o sonho acabou!

Viagem à chapada (6º Dia)


O dia foi de gastronomia e de vivência na vila.
Começar o dia no (restaurante) O Galpão tomando café e ouvindo Nina Simone, enquanto se come um sanduiche de pão integral com queijo e orégano, é de uma delicia longe da trivialidade de lanchar na padaria da esquina ouvindo sinfonia de buzinas.
Aqui todas as informações do ambiente te dizem bom dia... O galo cantando, a jaqueira frondosa, o beija-flor passeando em todas as flores e Diego, o proprietário do lugar, com seu sotaque hermano, é de uma simpatia aconchegante tal qual seu espaço.
A noite fomos à pizzaria "Pizza Integral Capão Grande". A fachada do local não da nem pista do universo que se abre no seu interior, é como se adentrássemos num portal mágico. O atendimento é muito legal, sem a caricata baianidade forjada nos pontos turísticos de Salvador.
Na praça, em frente a igrejinha, ficam uns artesãos com seus trabalhos e suas história pra contar, sobre suas andanças, sobre a percepção do capão de antes e o de hoje.
Na volta ao camping pela estrada afora de terra, sem iluminação artificial, vejo vagalumes e um céu coberto de estrelas.
Sinto a felicidade genuína de simplesmente existir em paz.

sábado, 6 de fevereiro de 2010

Viagem à chapada (5º Dia)


Hoje o dia foi de espera e deslocamento. O ônibus que nos levaria de Lençóis para Palmeiras varia entre o meio-dia e o infinito. Chegou quase três horas da tarde, quatro de espera, mas nada desagradável, afinal estávamos na sombra, e na praça da cidade é possível repor a garrafa com água mineral.

A paisagem da viagem é linda, víamos o dia bem iluminado com suas nuvens roçando os arranha-céus de pedra; um verde vivo e intenso e flores exuberantes. Tantos eram os estímulos de ambos os lados do ônibus que era impossível permanecer em apenas um dos lados da janela.

Quase duas horas de viagem depois desembarcamos em Palmeiras, uma cidade pequena e muito aconchegante, mas não tivemos muito tempo de conhecê-la, afinal nosso destino era o vale do Capão e os carros (Rural Willys) já fechavam a lotação de passageiros.

De Palmeiras para o Capão atravessamos uma estrada de terra numa viagem pitoresca. Ficamos hospedados num chalé da pousada Sempre-Viva, um lugar legal colorido de flores lindíssimas e com uma freqüência imensa de estrangeiros dos mais variados estilos e cabelos, muitos dread looks interessantes.

A vila é muito bonita e singela. Estava muito cheia de turistas num clima meio fora do que eu esperava do Capão... Rapazes tatuados embriagados ouvindo som alto do fundo de um carro, numa imitação do que já vi nos locais que antes eram paraísos perdidos, e num repente encontrados (invadidos) por uma galera modista que não procuram sua praia, só na onda de invadir praias alheias poluindo e estragando tudo que acham pela frente.

Jantamos na casa de Dalva, uma casa residencial que também serve refeições e lanches como o famoso pastel de palmito de jaca.

Viagem à chapada (4º Dia)


Mais trilhas. Desta vez 10 km, conheci a Cachoeira da Primavera, o Ribeirão do Meio e a deslumbrante e onírica Cachoeirinha, tive a sensação de estar numa paisagem do paraíso mitológico. As águas do lago que se formam da queda d’água é límpida a ponto de se ver cada pedrinha ao fundo e seus peixinhos que beliscam nossas pernas. A Cachoeirinha é menor que a do Sossego, mas tão aconchegante quanto. Apesar de esta trilha ter sido menor que a do Vale do Sossego, o grau de dificuldade é um pouco maior.

Passamos também pelo Vale do Pai Inácio acessando sua bela vista panorâmica da Chapada. A sensação de estar suspenso sobre as pedras era de que num impulso eu poderia passar para outro paredão, talvez seja o corpo querendo participar da sensação de vôo que os olhos experimentavam.

Viagem à chapada (2º Dia)


Estou em Lençóis. Cheguei por volta das 5 horas da manhã. Saindo do ônibus com a cara amassada de sono, vários “nativos” disputam os passageiros gritando nomes de pousadas e oferecendo passeios turísticos. Como não havia feito programação prévia nem reservado local pra ficar, fui com a barraca de camping e muita disposição para aventurar todas as situações que uma viagem não-programada pode nos reservar, então segui andando pelas ruas sem rumo definido enquanto um dos guias que estavam na rodoviária seguiu-nos (eu e Bruno), como se tivéssemos combinado algo, conduzindo-nos para uma casinha bem simples, porém com camas confortáveis, geladeira, fogão e banheiro com ducha quente. É claro, ficamos!

Logo a simplicidade da casa somado ao olhar doce e assustado da vizinhança enterneceu minha alma. Começo a retirar minhas armaduras, que na cidade, muitas vezes, é essencial para transitarmos nela. Já me sinto mais tranqüilo em desfazer o cenho fechado, e não sou abordado, a cada segundo, por um pedinte. Não preciso ficar tão em alerta, pois o transito de carros não é tão intenso e desordenado quanto em Salvador. Estou feliz, não tenho internet, não recebi nenhuma ligação, digo bom dia aos vizinhos e eles respondem felizes, estou ouvindo Elis Regina e ainda tenho chuveiro quente. É, acho que estou bem.

Viagem à chapada (1º Dia)










Na rodoviária de Salvador esperando o ônibus para Lençóis – BA.

A cidade esta mais esquizofrênica e desequilibrada a cada dia. Eu sou parte dela, afinal ela nada mais é do que o holograma de nossas construções internas. Percebo, então, o caos em que me encontro: excesso de barulho, poluição visual, intoxicado, vaidoso, competitivo...

Estou precisando fugir um pouco do tempo da cidade, da hora marcada, do dentista, do trabalho, do cinema, do banco, de tudo rigidamente oprimido pelo relógio. Quero viver o tempo da natureza, do agora, principalmente da minha natureza, que nem sei mais o que de natural existe nela. Será um resgate desta essência ou puro bucolismo este meu conflito?

Perceberei isto na minha breve viagem. Quero ver até onde se estenderam os tentáculos disso que tornam as cidades, e até seus pontos mais pitorescos, em meras vitrines do capitalismo.

domingo, 17 de janeiro de 2010

Metamorfoseando-se

Abriu os olhos lentamente, sentia as pálpebras pesadas. Os cílios embaraçados das lagrimas de ontem trazia à memória que toda aquela dor latejante sofrida na noite anterior já não passava de uma pequena sensação de ressaca.
Era estranho perceber isso - como podemos viver momentos extremamente angustiantes numa noite e acordar como se tudo tivesse sido um sonho ou um surto alucinante - Como aqueles dias bonitos de verão que se transformam num dia cinza, com nuvens carregadas ressoando batuques de trovões, como se fosse chover até não parar mais. E, então, amanhece um dia lindo e tranqüilo, os pássaros cantando levemente sua canção de sempre, as flores com algumas gotas de orvalho, a terra levemente úmida. Simples assim, como um sorriso banguela de uma criança que descobre naquele instante o puro prazer de sorrir.
Assim Ella despertou. Continuou na cama, foi tomando consciência do seu corpo, alongando-se, e pensando no que tinha sido a noite anterior em sua vida. Lembrou-se que lera talvez num poema de Mario Quintana, que toda decisão é um ato de dor. Concordara: Sim! Assim como a dor da lagarta que na crisálida vive o momento de abrir mão do que parece ser ela. E, é, de fato, parte do que a compõe, mas é necessário que morra esta parte para que algo novo surja, a borboleta precisa voar.
Seu primeiro entendimento do que viria ser a paixão, aconteceu no fim da infância com sua vizinha de mesma idade, ambas adoravam aproveitar a sesta da mãe de Ella, nas tardes, trancadas no quarto com as janelas abertas, descobriam o corpo alheio sem armaduras. Eram toques, beijos, e a sensação incrivelmente excitante de descobrir o calor gelatinoso do delicado orifício da amiga.
Lembrou-se da frase que recebera na noite anterior, através de uma mensagem no celular - conter uma enxurrada pode ser tão difícil quanto parar um tufão - e de como fazia tempo que não sentia o coração trepidar com a simples lembrança de alguém. Na verdade, vivera algumas paixões platônicas na adolescência por rapazes mais velhos, nada relevante pois existia uma charada guardada em sua esfinge particular que a devorava sempre. Uma prisão dentro do seu próprio castelo que não lhe permitia se abrir para ninguém, muitas vezes, nem para si mesma.
A liberdade era uma sensação que ainda a assustava. Era como se apoderar de algo que é seu, mas que não se achava digna de possuir. Ou, como se tivesse uma tela em branco, tintas e pincéis disponíveis, faltando-lhe coragem de preencher aquele espaço, tatuando-o com seus traços... Existia um medo de desenhar a própria vida. Talvez uma culpa ancestral.
Lembrou-se de datas marcantes em sua vida- seu primeiro beijo, a sensação da menstruação escorrendo pelas pernas, o primeiro orgasmo, a morte de sua mãe - todas as dores e prazeres que a fizeram se sentir mulher a cada dia. Essa era sua primeira tentativa de traçar um risco peculiar em sua vida-aquarela. Naquela manhã acordou decidida a dar um significativo passo em seu processo de vida-descoberta: Cortaria seus cabelos, entregá-los-ia à Iemanjá, e diria sim ao pedido de namoro que recebera de uma mulher, ambas apaixonadas e temerosas. Partilhariam então: não temer fogueiras, torturas, espelhos, nem telas em branco.