quarta-feira, 22 de agosto de 2012

Que E.T. é você?

   Eu nasci sem saber que estava fadado a carregar o peso da tradição de onde se nasce. Pois não se nasce tendo muita consciência de nada. Mas aos poucos, como um buraco negro sugando tudo a nossa volta tentamos preencher constantemente e ansiosamente o que não tem início e nem fim, e por isso nunca será preenchido.
   Nasci no interior de São Paulo, numa cidadezinha chamada Limeira. Não me lembro muito bem a história que me contaram na escola sobre a origem do nome, mas lembro a sensação de visualizar aquele primeiro homem pré-limeirense que de alguma forma nomeou a cidade. Mas tudo isso pode ser uma imaginação minha corrompida pelo tempo.
   Quando eu era limeirense e não percebia que existia em minha fala um erre (a letra "R") que quase virava um "i" em palavras como carne, porta, português, etc eu era feliz e não sabia. Por volta dos 6, 7 anos me mudei para o interior da Bahia, numa cidade que se autodenominava "Portal da Chapada Diamantina", chamada Itaberaba, que significa "Pedra que Brilha" em alguma língua indígena. Chamavam-na assim por causa de uma imensa pedra que existia nos arredores da cidade, uma pedra que ainda continha escrita dos mais remotos moradores de lá... Quanto os índios que escreveram nesta pedra que nomeia a cidade eles foram dizimados, como quase todos os índios. E só são lembrados, superficialmente, em abril, no dia dos índios, como lembramos do Papai Noel, no natal; do coelho da páscoa, na páscoa... Ou como qualquer outra imagem que não queremos esquecer, mas pouco importa saber o seu real significado.
   Lembro-me das primeiras sensações de me sentir um E.T por conta da diferença cultural: No primeiro dia de aula no primário, formou-se uma roda em torno de mim e eu como um palhaço no picadeiro dizia qualquer palavra com "R" para a alegria geral da plateia. O espetáculo terminava quando a professora entrava na sala e por compaixão permitia que eu me sentisse apenas mais um na classe.
   Em pouco tempo, e sem nem perceber a mutação, lá estava eu aprendendo que suco congelado no saquinho na Bahia era geladinho e não chupe-chupe, como havia aprendido em Limeira. Aprendi também o momento certo de se utilizar a interjeição Oxente! e suas variações Oxe!, Oxe, oxe, oxe, oxe...!, Ô retado!, entre outras. E utilizava muito o palavrão "porra!" para tudo e a toda hora. Mas não deveria nunca xingar o nome da pelada: Desgraça!, pois era nome quase proibido. Só os mais hardcores usavam-na sem medo das possíveis consequências advertidas pelos mais velhos, como ser interpelado pelo próprio Capeta.
   Terminado o ensino médio fui morar em Salvador. Na capital da Bahia descobri outras maravilhas que no interior não acessei. Descobri Gal Costa, Caetano Veloso, Maria Bethânia, Gil, Tom Zé, Hermann Hesse, Caio Fernando Abreu, Hilda Hilst, Drummond, Fernando Pessoa, Osho, krishnamurti, Alexander Lowen, Almodovár, Lars von trier, Karim Ainouz, Walter Salles, Laís Bodanzky... Descobri artes plásticas nos museus da cidade. Descobri o cinema de lugares do mundo que eu nem percebia no mapa. Estava descobrindo o Brasil. E amando o país.
Cresci influenciado pela cultura norte-americana, assistindo filmes hollywoodianos que passavam na TV, ouvindo música pop estrangeiras nas rádios, e praticamente não lia nada (só quando obrigado para fazer as provas na escola)... Até me tornar soteropolitano.
   Estar em Salvador era encantador. Ter uma praia lindíssima fazendo parte da cidade, o "Porto da Barra", era de um privilégio que eu nunca banalizei. Acessar as exposições no Museu de Arte Moderna ( Mam) e toda sua beleza histórica (sua capela, seu chão de pedras, seus caminhos encantados e cheio de arte para onde quer que se olhe - arte feita pelo homem e pela natureza). Cruzar na rua com artistas que eu admirava no palco também era algo que eu achava bem legal. Conhecer a comunidade de candomblé do Ilê Axé Opó Afonjá, e toda seu axé, participando das cerimônias em homenagem ao patrono da casa - Xangô (Kawo Kabiyesi le!) , e todas as festas suntuosas no barracão era acessar uma magia inefável - só pode ser vivida sentida, pouco se explica. Passear pela Ribeira e seguir até a Ponta do Humaitá é um passeio de beleza estonteante. Descobrir sambas e barezinhos no Pelourinho, entrar em igrejas e ver registros tristes das senzalas do tempo da escravidão oficializada, ser abordado a cada passo que se dê por algum pedinte em estado de miséria e em total entrega às drogas  é bem triste e desagradável, mas ainda assim é possível interagir com todo o ambiente e aguçar nosso espirito político pensando no que seria uma solução real para reverter aquele bizarro quadro.. É aprender a chupar cana e assobiar ao mesmo tempo. Estar no Rio Vermelho, no "Largo da Dinha" comer um acarajé ou abará, tomar cerveja e ver uma noite quente de lua cheia e o mar repleto de barquinhos refletindo os raios lunares como uma linda estrada de prata... São situações que inebriam a alma. E, tudo isso fez como que eu me encantasse por Salvador sem ter traçado um plano de estratégia, como fez Dante Alighieri, para passar imune aos encantos das sereias. Ao contrário, eu me entreguei de peito e alma ao puro encantamento e sedução. Eram dias eternos de carnaval.
   Agora, estou no Rio de Janeiro. Mal posso pronunciar uma simples frase que sou visto como a alegria materializada em forma de homem. Afinal, Baiano não nasce, estreia!; Sorria!, você está na Bahia; Bahia, Terra da alegria! e todos os lemas e dilemas que criaram o estigma da baianidade.
   Mas, ô mô pai... Ó pai ó! Eu não sabia que era paulista quando nasci em Limeira, eu não era baiano quando morei na Bahia, e agora sou baiano morando no Rio. Tudo que eu como me oferecem pimenta, e ainda se assustam quando recuso: "Mas você não é baiano?". No meu pensamento respondo: Não sou baiano, não sou paulista, não sou carioca. Não sou nada e sou tudo ao mesmo tempo! Os franceses tomam e não tomam banho, os colombianos traficam e não traficam drogas, os ingleses são e não são pontuais, a África é um continente, nem todo palestino é e não é um homem bomba e eu sou e não sou um baiano. E me deixe comer meu miojo sem pimenta, please.

terça-feira, 8 de março de 2011

É preciso ter coragem
pra seguir a intuição
ainda que a razão
mostre: contradição
e o medo diga: não saia sozinho.
Nem sempre a mente
é somente
a única bússola
saibamos
também
ouvir o coração.

quarta-feira, 10 de novembro de 2010

Violência nossa de cada dia

Num átimo, enquanto se espera o sinal abrir e
um solavanco de um corpo sujo contra o dele, enquanto levam seu celular, relógio ou carteira e
no susto, um desequilíbrio e
uma roda de ônibus passando em cima de suas pernas, enquanto pessoas atônitas e curiosas assistem, como platéia, o sangue jorrando de um pequeno chafariz que desenha no asfalto sujo a face da Morte.
E foi assim a primeira cena de uma manhã/numa quarta-feira/no centro da cidade/de uma capital/de um país extremamente injusto e desigual.


(Trilha do dia: Construção – Chico Buarque.)

quinta-feira, 11 de fevereiro de 2010

Viagem à Chapada (último dia)


A despedida foi como se deixássemos velhos amigos: O recepcionista do camping, que toca numa banda de reggae; A familia rippie, artesãos de lindos sonhos; Os amigos da casa-restaurante-repleta-de-vinis-e-uma-vitrola-incrível-na-sala, que me emprestou um livro para que eu entregasse a qualquer tempo num novo reencontro; A família recifense, que encontrávamos em trilhas, ônibus, cachoeiras... sem que marcássemos encontro; O moto-táxi, récem-rechegado à vila, que por conta de uma paixão por uma nativa deixou sua terra natal, que para minha surpresa era um lugar menor que o vale do Capão; Viviu, o dono da mercearia, com seu horário comercial próprio: "abro qdo quero e fecho quando me enche o saco"; As flores; Os dreads looks coloridos; As cachoeiras; O Cheiro de terra; As estrelas; O silêncio; A sinfonia dos pássaros...

Dor no coração. Uma parte de mim volta e uma outra maior fica. Não quero acreditar que o sonho acabou!

Viagem à chapada (6º Dia)


O dia foi de gastronomia e de vivência na vila.
Começar o dia no (restaurante) O Galpão tomando café e ouvindo Nina Simone, enquanto se come um sanduiche de pão integral com queijo e orégano, é de uma delicia longe da trivialidade de lanchar na padaria da esquina ouvindo sinfonia de buzinas.
Aqui todas as informações do ambiente te dizem bom dia... O galo cantando, a jaqueira frondosa, o beija-flor passeando em todas as flores e Diego, o proprietário do lugar, com seu sotaque hermano, é de uma simpatia aconchegante tal qual seu espaço.
A noite fomos à pizzaria "Pizza Integral Capão Grande". A fachada do local não da nem pista do universo que se abre no seu interior, é como se adentrássemos num portal mágico. O atendimento é muito legal, sem a caricata baianidade forjada nos pontos turísticos de Salvador.
Na praça, em frente a igrejinha, ficam uns artesãos com seus trabalhos e suas história pra contar, sobre suas andanças, sobre a percepção do capão de antes e o de hoje.
Na volta ao camping pela estrada afora de terra, sem iluminação artificial, vejo vagalumes e um céu coberto de estrelas.
Sinto a felicidade genuína de simplesmente existir em paz.

sábado, 6 de fevereiro de 2010

Viagem à chapada (5º Dia)


Hoje o dia foi de espera e deslocamento. O ônibus que nos levaria de Lençóis para Palmeiras varia entre o meio-dia e o infinito. Chegou quase três horas da tarde, quatro de espera, mas nada desagradável, afinal estávamos na sombra, e na praça da cidade é possível repor a garrafa com água mineral.

A paisagem da viagem é linda, víamos o dia bem iluminado com suas nuvens roçando os arranha-céus de pedra; um verde vivo e intenso e flores exuberantes. Tantos eram os estímulos de ambos os lados do ônibus que era impossível permanecer em apenas um dos lados da janela.

Quase duas horas de viagem depois desembarcamos em Palmeiras, uma cidade pequena e muito aconchegante, mas não tivemos muito tempo de conhecê-la, afinal nosso destino era o vale do Capão e os carros (Rural Willys) já fechavam a lotação de passageiros.

De Palmeiras para o Capão atravessamos uma estrada de terra numa viagem pitoresca. Ficamos hospedados num chalé da pousada Sempre-Viva, um lugar legal colorido de flores lindíssimas e com uma freqüência imensa de estrangeiros dos mais variados estilos e cabelos, muitos dread looks interessantes.

A vila é muito bonita e singela. Estava muito cheia de turistas num clima meio fora do que eu esperava do Capão... Rapazes tatuados embriagados ouvindo som alto do fundo de um carro, numa imitação do que já vi nos locais que antes eram paraísos perdidos, e num repente encontrados (invadidos) por uma galera modista que não procuram sua praia, só na onda de invadir praias alheias poluindo e estragando tudo que acham pela frente.

Jantamos na casa de Dalva, uma casa residencial que também serve refeições e lanches como o famoso pastel de palmito de jaca.

Viagem à chapada (4º Dia)


Mais trilhas. Desta vez 10 km, conheci a Cachoeira da Primavera, o Ribeirão do Meio e a deslumbrante e onírica Cachoeirinha, tive a sensação de estar numa paisagem do paraíso mitológico. As águas do lago que se formam da queda d’água é límpida a ponto de se ver cada pedrinha ao fundo e seus peixinhos que beliscam nossas pernas. A Cachoeirinha é menor que a do Sossego, mas tão aconchegante quanto. Apesar de esta trilha ter sido menor que a do Vale do Sossego, o grau de dificuldade é um pouco maior.

Passamos também pelo Vale do Pai Inácio acessando sua bela vista panorâmica da Chapada. A sensação de estar suspenso sobre as pedras era de que num impulso eu poderia passar para outro paredão, talvez seja o corpo querendo participar da sensação de vôo que os olhos experimentavam.